Buraka: "proporcionámos a descolonização mental"

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A 1 de julho de 2016, os Buraka Som Sistema davam o seu último concerto de sempre, nos Jardins da Torre de Belém, em Lisboa, diante de cerca de 20 mil pessoas. A energia em bruto desse espetáculo de despedida pode ser sentida no álbum ao vivo que é lançado hoje: Buraka 4 Ever". 'Kalemba', '(We Stay) Up All Night', Eskeleto' ou 'Sound of Kuduro' são alguns dos momentos empolgantes do disco, temas que sempre levaram o seu público ao rubro. Cinco anos depois, na tarde de 1 de julho de 2021, reencontramos em Belém duas das vigas da estrutura eletrónica dos Buraka: Branko e Rui Pité (também conhecido como Riot). O que vos leva a lançar nesta altura o álbum ao vivo do vosso concerto de despedida? ranko - A ideia de gravarmos o concerto final foi sempre com o intuito de vermos o que é que poderíamos fazer. Sentimos que os Buraka sempre foram uma banda que tinha uma grande força ao vivo, sempre foi um grupo de tour, de celebração no palco com a audiência, que sentimos que isso teria que ser imortalizado de alguma forma nestes dez anos de Buraka. Pareceu-nos que não só pelo facto de terem passado cinco anos desde esse momento [de despedida] e de termos seguido com os nossos projetos, oma-se ainda o fator da pandemia e de pensarmos que um concerto de Buraka era tudo menos um concerto de distanciamento. Era uma aproximação social e era isso que se queria. Vamos querer que este Buraka 4 Ever seja para sempre. Que memórias mais especiais têm desse concerto? Riot - Já sabíamos durante algum tempo que iria ser o último concerto. Foi, obviamente, um concerto emotivo por essa razão. Do meu ponto vista, olhei para os meus colegas de banda e senti orgulho do percurso de tínhamos feito. Esta viagem dos Buraka é tão hipersónica que só depois e no último dia é que se consegue avaliar o que foi feito e o que não foi feito, os objetivos atingidos e o que se alcançou sem se estar à espera. Nem sequer estavas à espera e conseguiste. Foi uma experiência ótima. Foi bom ver família, amigos e Belém cheio para a despedida dos Buraka. O que é que vos levou a parar em 2016? B - Naquela altura usámos a palavra hiato. Sentimos que a banda que desenvolvemos entre 2006 e 2016 tinha impacto pela música e pelos concertos. Também, de alguma forma, traçou um percurso social e proporcionou à nossa audiência uma descolonização mental que fez com que esse impacto social fosse forte. Notou-se - pela quantidade de projetos que surgiram durante a atividade dos Buraka - esse abraço à cultura portuguesa, à nossa música eletrónica e à mistura cultural que se vive em Lisboa. Até esse momento, tínhamos conseguido explicar o que éramos. Não sabíamos que ao continuarmos poderíamos estar a estragar e a desfocar essa ideia e esse impacto. Agora, podendo olhar para trás e intelectualizar o que na altura estava a acontecer, leva-me a crer que fez todo o sentido. Essa paragem preparou uma série de sementes que prolongaram o legado da banda e aquilo que era a intenção da criação da banda, numa série de formatos diferentes, mas como parte do mesmo puzzle. Todos os projetos que o Rui [Pité] desenvolveu, todos os projetos que eu trabalhei, a incrível carreira que a Blaya fez, ou a Pongo Love, a escrita do Kalaf, tudo isso foram sementes plantadas que acrescentaram aos dez anos dos Buraka. Para se ser bem feito, tem que se parar e fazer zoom out para conseguirmos essa objetividade. Têm medo que esta loucura coletiva vivida em Belém não mais se repita? R - Medo, não sei. Não sabemos quando é que voltará a acontecer de novo. Acho estranho que não se repita de novo algo assim no futuro. Mas repara que eu não disse "futuro próximo". A saída deste disco serve também para relembrar a energia que os Buraka tinham ao vivo e celebrar a antítese completa do que se vive hoje em dia: gente em cima do palco, toda a gente a saltar, a dançar e a rebolar no chão. Acho que as pessoas sentem falta disso. Pode voltar a acontecer de novo. Mas este disco veio para dar pelo menos 50% da experiência do que é Buraka ao vivo e do que é que as pessoas sentiam. Há pessoas que só conhecem Buraka dos discos, há pessoas que iam aos concertos e que á têm saudades do que éramos ao vivo. Os concertos com 20 mil pessoas vão voltar a acontecer com energia parecida. Gostavam de voltar como cabeças-de-cartaz do Sónar? B - O Sónar fez parte do percurso dos Buraka, tocámos lá quatro ou cinco anos seguidos. Tivemos lá experiências incríveis. É um festival que nos permite a facilidade gostar de várias coisas diferentes. É mais fácil circulares num festival de eletrónica e entrares nas salas e encontrares coisas que gostas e outras que não gostas. Quando pensas em música de bandas, tens sempre mais layers e camadas, e há uma dificuldade maior [em ser surpreendido]. Sei que o Sónar sempre proporcionou isso a Buraka. Sem dúvida que faria todo o sentido Buraka existir num estival como o Sónar, em Barcelona ou em Lisboa, mas isso não vai acontecer. Seria bonito, sem dúvida. Vocês estão muito ligados ao hemisfério sul do planeta. Aumentou o fosso entre norte e sul com esta pandemia da covid-19? R - Penso que aumentou por uma questão económica. O acesso às vacinas não é o mesmo no sul que é no norte. As vacinas não são primeira coisa que mais dificilmente chega ao sul. Obviamente que se trata de saúde pública, em que toda a gente tem que ficar vacinada. Quando digo toda a gente, é o planeta inteiro. O perigo é maior quando há pessoas com dificuldades em ter apoio médico e acesso a vacinas. Tenho esperança que se reative algum bom senso no G8 para que espalhem mais apoios lá para baixo. B - Paralelamente à parte científica, sinto que está a haver uma presença muito forte da música da costa ocidental de África, em países como o Gana, a Nigéria ou a África do Sul. Antes da pandemia, estavam a ter uma grande projeção pelo mundo, com uma penetração incrível nos tops de alguns países. O facto dos países ocidentais terem passado tanto tempo obcecados com a pandemia e o facto de não se ter parado de produzir cultura, fez com que artistas como o Burna Boy ou o Wizkid [ambos nigerianos] tivessem ganho um terreno incrível. Essa continuidade de produção pode ter sido uma vantagem [para esses países do sul].

FANTAS FM

A MÚSICA NO RITMO CERTO

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